BELO ARTIGO

Se você puder, aprecie com atenção o artigo abaixo da professora Samantha Buglione sobre a ausência de Florianópolis na Copa do Mundo de 2014. O texto, publicado na edição de hoje do Jornal A Notícia, traz uma análise especial sobre a série de elementos que contribuíram com o insucesso do Estado de Santa Catarina na questão. Confira:


Copa do Mundo: realidade e ufanismo

Uma maneira de verificar a maturidade das pessoas é ver se elas conseguem se distanciar do seu microcosmo de relações e se têm capacidade de assumir responsabilidades. Vale dizer: uma criança está amadurecendo quando se dá conta de que seu pai é uma pessoa de valor, mas não e um “super-herói”, porque isso não resiste ao teste da realidade. Outra forma de ver a maturidade é quando a criança deixa de botar a culpa de tudo que dá errado nos outros e passa a levar em conta a sua própria ação nos fatos da vida.Guardadas as devidas proporções, essa lógica vale também para a sociedade e cultura em geral, para as cidades, os Estados e os países. Que me perdoe a maioria dos gaúchos, mas a máxima “melhor porque é nosso” não tem qualquer fundamento. Aqui em Santa Catarina, parece que há algo parecido. Achar que Florianópolis teria condições de sediar a Copa do Mundo de 2014 é não enfrentar o teste da realidade.Se a cidade não se emancipa das opiniões e ideias dos “nomes de rua” sempre – a dita aristocracia de Florianópolis, habitantes da antiga Trompowsky, de Coqueiros e atualmente de Jurerê –, acaba passando por esses constrangimentos em âmbito nacional e internacional. Somente a beleza não põe mesa, pelo simples fato de que há muitos lugares bonitos no mundo e também no Brasil.Para um evento da magnitude da Copa, é preciso ter um urbanismo adequado, e Florianópolis não dá conta sequer do seu dia-a-dia. É preciso ter um espírito de cidade, de coisa pública, de planejamento a médio e longo prazo. Florianópolis não tem aeroporto adequado, não tem medicina de ponta, não tem um sistema público de transporte que dê conta da sua própria população, não tem ruas e rodovias em condições, tem um trânsito que não funciona e serviços públicos precários para atender a todos.Florianópolis não tem sequer espaços verdes públicos, como praças. Não vou entrar na questão ambiental, porque aí seria necessário muito mais que este espaço para falar do saneamento básico, das áreas verdes, das ocupações dos morros, da preservação do mangue, da poluição da Lagoa e de várias praias, só para citar alguns pontos.Imagine se chove no dia do jogo: aquela chuva que atualmente assusta a todos e mostra o quanto o urbanismo da Capital é precário. Por outro lado, já que vivemos na cultura do “tudo na última hora”, os gerentes públicos daqui poderiam ter se preparado e apresentado um programa factível, com um orçamento viável de obras a serem realizadas até 2014. Isso demonstraria o mínimo de maturidade política.Nessa hipótese, em sendo a cidade rejeitada, o poder público poderia dizer exatamente isso: que a cidade apresentou uma proposta comprovadamente viável e que esta foi rejeitada e, aí sim, seria uma rejeição politicamente engendrada, como está sendo dito aos quatro ventos.Mas aqui temos a segunda falha de Florianópolis, que é a sua dificuldade em perceber-se responsável pela sua trajetória urbanística. Ao invés de assumir a responsabilidade por nunca ter administrado a coisa pública adequadamente e a partir daí ter uma atitude pró-ativa, preferiu reclamar e responsabilizar o mundo, a política nacional, as forças ocultas. Como diz Ortega y Gasset, o ser humano interpreta o mundo pelas próprias razões, ou, como diriam os mais antigos, “quem tem o vício, tem a malícia”. Quem fala que o fracasso por não ser Florianópolis sede da Copa só pode ser uma manobra política, uma decisão que atende a interesses escusos, é porque, na sua prática diária, faz exatamente a mesma coisa.

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